E=mc2: o mais urgente problema do nosso tempo <font color=0093dd>(1)</font>
No ano em que passa o centenário de Ruy Luís Gomes, ilustre figura do panorama científico e cultural e destacado militante antifascista, nascido a 5 de Dezembro de 1905; quando se assinala os 60 anos dos bombardeamentos de Hiroxima e Nagasáqui (6 e 9 de Agosto); e quando por todo o mundo se celebra o Ano Mundial da Física em homenagem ao centenário do notável ano na produção científica de Albert Einstein, o ano de 1905, vale a pena relembrar o artigo publicado há meio século, em separata da revista Lusíada, Vol.II, pelo professor Ruy Luís Gomes.
O documento, de que o Avante! publica excertos, é uma comovente homenagem a Einstein, falecido a 18 de Abril de 1955, e um veemente apelo à luta pela paz.
No dia 6 de Agosto de 1945, às 11.15 horas (hora local), uma superfortaleza B29, Enola Gay, lançou sobre a cidade japonesa de Hiroxima uma bomba atómica – a primeira que o mundo conheceu!
Três dias depois, às 11.02 horas, outra superfortaleza, Great Artist, que anteriormente acompanhara a Enola Gay, depois de ter procurado, em vão, atingir o alvo n.º 1 – Kokura – foi largar a segunda bomba atómica (a última até hoje!) sobre Nagasáqui (2). Destas duas missões de guerra resultou um balanço acusador de 130 000 mortos e 70 000 feridos, não falando já nas enormíssimas destruições materiais! No entanto, como a Segunda Guerra Mundial ainda não tinha terminado (faltava a rendição do Japão, sucedida dias depois) e era ainda impossível pôr em causa os seus pretensos direitos, aqueles números, que hoje nos arrepiam, não apareceram, acto contínuo, com toda a sua força – a única – de documento decisivo para que nos unamos em defesa da Paz!
É certo que ninguém deixou de pensar, a partir da prova de Hiroxima e Nagasáqui, que um perigo apocalíptico pesava sobre toda a Humanidade, se as grandes potências não chegassem rapidamente a um entendimento, por maneira a abdicarem – para sempre e em absoluto – do recurso à guerra.
Mas, tal como acontece na vida individual, em que apenas a experiência de cada um tem suficiente poder de convencimento, também no domínio mais amplo da vida dos povos, os acontecimentos de que eles próprios participam, tem essa experiência uma evidência bem superior ao conselho mais sensato ou ao raciocínio mais perfeito. Assim, nem a simples explosão de ensaio, há pouco mais de um ano, foi capaz, só por si, de desfazer qualquer dúvida de que os habitantes do nosso planeta – sejam brancos, negros ou amarelos, cristãos, maometanos, budistas ou ateus – não possam ter já a sua saúde ou até a sua vida irremediavelmente comprometida, como consequência de exercícios (apenas exercícios) com vista a uma guerra que, felizmente, ainda nem sequer rebentou! É que já entrámos – com o nosso próprio corpo e não apenas por antevisão especulativa – na era das bombas de fusão, deixando para as nossas recordações, quase como estranhos objectos de museu, as bombas de fissão.
Avivemos a nossa memória...
No dia 1 de Março de 1954, às 4.12 horas da madrugada, quando o pesqueiro japonês Dragão Feliz 5 andava na sua pacífica faina, os homens notaram um enorme clarão – primeiro avermelhado, depois amarelo e novamente vermelho – na direcção O-SO. Sete minutos mais tarde, ouviram o ruído de uma forte detonação a grande distância, logo seguido de um rumor surdo. Passada a sua natural surpresa, perante um fenómeno tão estranho, retomaram tranquilamente a sua faina... Porém, algumas horas mais tarde, começou a cair sobre o barco uma poeira, esbranquiçada como talco, prolongando-se o fenómeno durante algumas horas.
De momento, como nada sentissem, nenhuma importância ligaram ao caso; mas três dias depois notaram umas borbulhas avermelhadas, como de queimaduras, principalmente no pescoço, nas mãos e nas orelhas. Tudo isso acompanhado de dores de cabeça e vómitos, de que se queixavam todos, incluindo, portanto, os que poderíamos supor protegidos pela circunstância de trabalharem nas dependências interiores do barco. Nestas condições não lhes foi possível prosseguir nas suas tarefas e fizeram-se de rumo ao porto mais próximo. Mal desembarcaram, tiveram de recolher a uma clínica hospitalar, onde um deles faleceu semanas depois (3).
A nossa imprensa deu notícia da emoção que essa morte causou em todo o mundo e da multidão que acompanhou ao cemitério local o corpo desse tripulante do Dragão Feliz 5...
Foi ele a primeira vítima conhecida de uma simples experiência de verificação da viabilidade de uma bomba H. Para melhor se avaliar da gravidade de quanto está condensado nesse insofismável documento humano, salientemos ainda este facto: a explosão fora cercada de todas as precauções – ninguém podia penetrar no interior de uma circunferência de 100 km de raio em torno do polígono da experiência (uma ilha do Pacífico), e o Dragão Feliz 5 navegou sempre a mais de 30 km para além daquela circunferência de segurança!
(...)
*
Contra este perigo se levantara já, muitos anos antes, Einstein, o maior físico teórico da primeira metade do nosso século, repetindo, ainda em 1950, numa mensagem aos investigadores italianos, a mesma palavra de ordem que pusemos em subtítulo deste artigo:
Afastar essa ameaça tornou-se o problema mais urgente do nosso tempo.
Mas, pertencendo-lhe a glória de ter enunciado, em 1905, no âmbito da Relatividade Restrita, a fórmula mágica:
E=mc2
que nos permite calcular a imensa quantidade de energia contida num grama de matéria, não pesará também sobre ele uma quota-parte de responsabilidade pelos malefícios potenciais e actuais da energia atómica nuclear?
Para dar uma primeira resposta a esta interrogação e atalhar, sem mais delongas, a tudo aquilo que tem sido arquitectado com maior ou menor poder de imaginação e donde resulta sempre alguma culpabilidade do sábio, culpabilidade que virá até em reforço da excepcional repercussão que a sua morte provocou no grande público (4) , basta reproduzir esta afirmação inequívoca (5):
Einstein opôs-se com todas as forças ao bombardeamento de Hiroxima e desde essa época não cessou de lançar apelos patéticos contra a guerra atómica.
E não foi só com a emoção desse histórico momento que Einstein assim procedeu. Não!
A sua vida é, toda ela, um laicato em prol da solidariedade humana, para empregar a feliz expressão de um crítico brasileiro (6), a propósito de análogas preocupações de fraternidade do notável gravador gaúcho Carlos Seliar. Mas desenvolvamos a demonstração, que é bem fácil, recordando as etapas mais importantes dos últimos cinquenta anos da história da Física.
Em primeiro lugar, a relação E=mc2 encontrou-a Einstein não por qualquer intuição instantânea, sem ligação com a evolução anterior da Física Teórica, mas sim como um dos resultados da Relatividade Restrita, por ele formulada no ano crucial de 1905.
Esta teoria, por sua vez, foi a resposta – que só Einstein enunciou em termos concludentes – às questões que então mais preocupavam os centros de investigação da Alemanha, Holanda e França, em torno da Electrodinâmica dos Corpos em Movimento.
(...)
*
Completada esta rápida excursão pelos domínios da Relatividade, retomemos a sua fórmula da equivalência da massa e da energia, onde porventura se pretende descobrir a origem das responsabilidades de Einstein... Até porque ele próprio profetizou, há cinquenta anos, que fosse possível comprová-la recorrendo-se a corpos de conteúdo energia altamente variável (por exemplo, sais de rádio).
Os efeitos devastadores da bomba atómica (bomba por fissão) e mais ainda da bomba termonuclear (bomba de fusão em que funciona de detonador uma bomba atómica) são uma confirmação bem evidente dessa antevisão de Einstein.
Mas caber-lhe-á alguma responsabilidade por uma tal utilização de energia atómica ou termonuclear? De modo nenhum! Basta mostrar que ele nenhuma tem em relação à explosão da primeira, e sempre combateu a corrida subsequente por novas e mais aperfeiçoadas armas de destruição em massa.
Não a têm também, é preciso afirmá-lo desde já, os físicos cujos nomes estão ligados para sempre e mais directamente aos maravilhosos progressos – experimentais e teóricos – já alcançados no caminho do conhecimento de estrutura dos núcleos atómicos: Becquerel e logo a seguir Pierre e Maria Curie e Rutherford – descoberta da radioactividade natural em 1896, 1898; Chadwick – descoberta do neutrão em 1932; Irene e Joliot-Curie – descoberta da radioactividade artificial em 1934; Fermi – utilização do neutrão como agente transmutante em 1943; a fissão descoberta por Hahn, Strassmann e Lise Meitner na Áustria em 1939 e que consiste na cisão do núcleo do isótopo raro urânio 235 em dois núcleos (...) com grande libertação de energia.
Do lado teórico, temos o desenvolvimento da mecânica ondulatória e da mecânica quântica, graças principalmente a L. Broglie, Bohr, Schrödinger, Heisenberg e Dirac.
Nesta lista de prémios Nobel não figura, como se vê, o nome de Einstein, apesar de esse Prémio lhe ter sido conferido, já em 1921, não pelas concepções da Relatividade mas sim pela contribuição que dera para a teoria corpuscular da luz.
Cabe-lhe, porém, a glória de ter formulado a lei que estabelece a relação directa entre matéria e energia. Foi sem dúvida o maior teórico da primeira metade do nosso século.
Por isso mesmo, com a consciência nítida do perigo que representaria para o Mundo a utilização da energia atómica para fins de destruição (o que Hitler não deixaria de fazer se o pudesse), Einstein dirigiu ao Presidente Roosevelt em 2 de Agosto de 1939 – já estávamos em guerra – este documento histórico:
«Senhor:
«Um trabalho muito recente de E. Fermi e L. Szilard, que me foi submetido sob a forma de manuscrito, leva-me a pensar que o elemento urânio pode ser transformado numa fonte de energia nova e importante, num futuro imediato. Certos aspectos da situação assim criada parecem recomendar vigilância e, se for necessário, uma acção rápida da parte da Administração. Eu creio por isso que é meu dever chamar a vossa atenção para os factos e recomendações seguintes:
«No decurso dos quatro últimos anos tornou-se muito provável, a partir dos trabalhos de Joliot em França, assim como de Fermi e Szilard na América, que possa ser possível estabelecer uma reacção nuclear em cadeia numa grande massa de urânio, a partir da qual muito importantes quantidades de energia e um grande número de elementos análogos ao rádio seriam criados. Agora parece como quase certo que isso poderia ser realizado num futuro muito próximo. Este novo fenómeno poderia conduzir também à construção de bombas e nós podemos conceber – se bem que isto seja um pouco menos certo – que bombas excessivamente poderosas dum tipo novo possam assim ser construídas.
«Uma só bomba deste tipo transportada num barco e explodindo num porto pode destruir tanto a totalidade do porto como uma parte do território circundante...
Estou informado de que a Alemanha acaba justamente de proibir a venda de urânio das minas da Checoslováquia, de que ela se apoderou. Que ela tenha empreendido uma tal acção tão prontamente pode sem dúvida ser compreendido a partir do facto de que o filho do Subsecretário do Estado alemão, von Weizsäcker, está ligado ao Instituto Kaiser Guilherme, de Berlim, onde certos trabalhos americanos sobre o urânio são actualmente reproduzidos.»
*
Esta atitude de Einstein está, afinal, na continuidade perfeita da luta contra a guerra que vinha sustentando desde sempre, e bem documentada em dezenas e dezenas de artigos conferências e apelos (7), realizados com mais intensidade a partir de 1920, embora não devamos esquecer que, já em Outubro de 1914, essa mesma preocupação de fraternidade humana o levou a subscrever, juntamente com Georg Nicolai e Wilhelm Foerster, um contramanifesto de resposta ao conhecido manifesto (de 93 intelectuais alemães) em apoio de Guilherme II. Foi um dos primeiros investigadores a tomar posição pública contra a utilização da bomba atómica e, perante o facto consumado, renunciou ao lugar de director do Instituto de Princeton, ficando ali apenas como simples trabalhador científico!
Mas continuou, sem desânimo nem interrupção, a sua luta apaixonada pela convivência entre os homens e a cooperação pacífica entre todos os povos do Mundo! Fez da Paz a sua bandeira! Se é certo que morreu sem ter assistido ao acto maior da Humanidade – a abdicação absoluta e definitiva do recurso à guerra que, na era atómica, a nossa era, será sempre injusta – pôde, ao menos, viver a suprema felicidade de encarar de frente a verdade da sua vida e sentir nisso uma grande alegria! E no vibrante apelo, agora tornado público por Bertrand Russell, a aposição da assinatura de Einstein, fazendo calar todas as especulações, remata admiravelmente uma vida ao serviço da Humanidade: Como é certo que, em toda a guerra futura, as armas atómicas serão empregadas... exortamos os governos do mundo a compreender e a reconhecer publicamente que não lhes será possível atingir os seus objectivos por meio de uma guerra mundial. Por isso, lhes pedimos que encontrem métodos pacíficos para regular todas as questões em litígio. Na nossa qualidade de seres humanos, nós dizemos-lhes: recordai-vos da Humanidade e esquecei o resto. Se quiserdes, a estrada para um novo paraíso ficará aberta. No caso contrário, tereis na vossa frente a ameaça da morte universal (8).
______________
(1) Título de um artigo publicado por Einstein, no jornal Science illustrated, n.º 1, Abril de 1946 (pp. 16-17).
(2) Sobre todo o problema das armas atómicas e nucleares aconselhamos o livro de Charles-Noël Martin: L’Heure H a-t-elle sonné pour le monde? Paris, 1955. Dele extraímos os dados recentes aqui utilizados.
(3) O próprio peixe e todos os objectos transportados no navio revelavam perigosa radioactividade, quando se lhes aproximava um contador Geiger. Como é sabido, estes aparelhos registam uma impulsão por cada desintegração que atravessa o detector.
Ora, alguns peixes revelavam uma radiação beta (electrões) da ordem de 10 000 impulsões por minuto (por centímetro quadrado de pele e à distância de 2 cm), quando as taxas normais não vão além de 20!
E o barco apresentava uma radiação gama (do tipo dos raios X) de 40 000 impulsões por minuto, a ponto de exigir um equipamento especial para os técnicos lá poderem entrar!
(4) É este o sentido de um artigo do escritor João Gaspar Simões: Einstein perante o Apocalipse, no Jornal de Notícias, 8 de Maio de 1955.
(5) Recordou-o a imprensa europeia, nomeadamente o jornal conservador Le Monde e precisamente por ocasião da sua morte. Consultar, por ex., Sélection Hebdomadaire, 14 a 20 de Abril de 1955.
(6) Ver a revista Habitat, n.º 20, impressionante documento dos progressos da arquitectura no Brasil. Foi-me indicada pelo meu amigo arquitecto António Lobão Vital.
(7) Consultar a sua bibliogradia em Albert Einstein, Philosopher-Scientist, Tudor Publishing Company, Nova Iorque, 1951.
(8) COMBAT – Le Journal de Paris, 11-7-1955.
Três dias depois, às 11.02 horas, outra superfortaleza, Great Artist, que anteriormente acompanhara a Enola Gay, depois de ter procurado, em vão, atingir o alvo n.º 1 – Kokura – foi largar a segunda bomba atómica (a última até hoje!) sobre Nagasáqui (2). Destas duas missões de guerra resultou um balanço acusador de 130 000 mortos e 70 000 feridos, não falando já nas enormíssimas destruições materiais! No entanto, como a Segunda Guerra Mundial ainda não tinha terminado (faltava a rendição do Japão, sucedida dias depois) e era ainda impossível pôr em causa os seus pretensos direitos, aqueles números, que hoje nos arrepiam, não apareceram, acto contínuo, com toda a sua força – a única – de documento decisivo para que nos unamos em defesa da Paz!
É certo que ninguém deixou de pensar, a partir da prova de Hiroxima e Nagasáqui, que um perigo apocalíptico pesava sobre toda a Humanidade, se as grandes potências não chegassem rapidamente a um entendimento, por maneira a abdicarem – para sempre e em absoluto – do recurso à guerra.
Mas, tal como acontece na vida individual, em que apenas a experiência de cada um tem suficiente poder de convencimento, também no domínio mais amplo da vida dos povos, os acontecimentos de que eles próprios participam, tem essa experiência uma evidência bem superior ao conselho mais sensato ou ao raciocínio mais perfeito. Assim, nem a simples explosão de ensaio, há pouco mais de um ano, foi capaz, só por si, de desfazer qualquer dúvida de que os habitantes do nosso planeta – sejam brancos, negros ou amarelos, cristãos, maometanos, budistas ou ateus – não possam ter já a sua saúde ou até a sua vida irremediavelmente comprometida, como consequência de exercícios (apenas exercícios) com vista a uma guerra que, felizmente, ainda nem sequer rebentou! É que já entrámos – com o nosso próprio corpo e não apenas por antevisão especulativa – na era das bombas de fusão, deixando para as nossas recordações, quase como estranhos objectos de museu, as bombas de fissão.
Avivemos a nossa memória...
No dia 1 de Março de 1954, às 4.12 horas da madrugada, quando o pesqueiro japonês Dragão Feliz 5 andava na sua pacífica faina, os homens notaram um enorme clarão – primeiro avermelhado, depois amarelo e novamente vermelho – na direcção O-SO. Sete minutos mais tarde, ouviram o ruído de uma forte detonação a grande distância, logo seguido de um rumor surdo. Passada a sua natural surpresa, perante um fenómeno tão estranho, retomaram tranquilamente a sua faina... Porém, algumas horas mais tarde, começou a cair sobre o barco uma poeira, esbranquiçada como talco, prolongando-se o fenómeno durante algumas horas.
De momento, como nada sentissem, nenhuma importância ligaram ao caso; mas três dias depois notaram umas borbulhas avermelhadas, como de queimaduras, principalmente no pescoço, nas mãos e nas orelhas. Tudo isso acompanhado de dores de cabeça e vómitos, de que se queixavam todos, incluindo, portanto, os que poderíamos supor protegidos pela circunstância de trabalharem nas dependências interiores do barco. Nestas condições não lhes foi possível prosseguir nas suas tarefas e fizeram-se de rumo ao porto mais próximo. Mal desembarcaram, tiveram de recolher a uma clínica hospitalar, onde um deles faleceu semanas depois (3).
A nossa imprensa deu notícia da emoção que essa morte causou em todo o mundo e da multidão que acompanhou ao cemitério local o corpo desse tripulante do Dragão Feliz 5...
Foi ele a primeira vítima conhecida de uma simples experiência de verificação da viabilidade de uma bomba H. Para melhor se avaliar da gravidade de quanto está condensado nesse insofismável documento humano, salientemos ainda este facto: a explosão fora cercada de todas as precauções – ninguém podia penetrar no interior de uma circunferência de 100 km de raio em torno do polígono da experiência (uma ilha do Pacífico), e o Dragão Feliz 5 navegou sempre a mais de 30 km para além daquela circunferência de segurança!
(...)
Contra este perigo se levantara já, muitos anos antes, Einstein, o maior físico teórico da primeira metade do nosso século, repetindo, ainda em 1950, numa mensagem aos investigadores italianos, a mesma palavra de ordem que pusemos em subtítulo deste artigo:
Afastar essa ameaça tornou-se o problema mais urgente do nosso tempo.
Mas, pertencendo-lhe a glória de ter enunciado, em 1905, no âmbito da Relatividade Restrita, a fórmula mágica:
E=mc2
que nos permite calcular a imensa quantidade de energia contida num grama de matéria, não pesará também sobre ele uma quota-parte de responsabilidade pelos malefícios potenciais e actuais da energia atómica nuclear?
Para dar uma primeira resposta a esta interrogação e atalhar, sem mais delongas, a tudo aquilo que tem sido arquitectado com maior ou menor poder de imaginação e donde resulta sempre alguma culpabilidade do sábio, culpabilidade que virá até em reforço da excepcional repercussão que a sua morte provocou no grande público (4) , basta reproduzir esta afirmação inequívoca (5):
Einstein opôs-se com todas as forças ao bombardeamento de Hiroxima e desde essa época não cessou de lançar apelos patéticos contra a guerra atómica.
E não foi só com a emoção desse histórico momento que Einstein assim procedeu. Não!
A sua vida é, toda ela, um laicato em prol da solidariedade humana, para empregar a feliz expressão de um crítico brasileiro (6), a propósito de análogas preocupações de fraternidade do notável gravador gaúcho Carlos Seliar. Mas desenvolvamos a demonstração, que é bem fácil, recordando as etapas mais importantes dos últimos cinquenta anos da história da Física.
Em primeiro lugar, a relação E=mc2 encontrou-a Einstein não por qualquer intuição instantânea, sem ligação com a evolução anterior da Física Teórica, mas sim como um dos resultados da Relatividade Restrita, por ele formulada no ano crucial de 1905.
Esta teoria, por sua vez, foi a resposta – que só Einstein enunciou em termos concludentes – às questões que então mais preocupavam os centros de investigação da Alemanha, Holanda e França, em torno da Electrodinâmica dos Corpos em Movimento.
(...)
Completada esta rápida excursão pelos domínios da Relatividade, retomemos a sua fórmula da equivalência da massa e da energia, onde porventura se pretende descobrir a origem das responsabilidades de Einstein... Até porque ele próprio profetizou, há cinquenta anos, que fosse possível comprová-la recorrendo-se a corpos de conteúdo energia altamente variável (por exemplo, sais de rádio).
Os efeitos devastadores da bomba atómica (bomba por fissão) e mais ainda da bomba termonuclear (bomba de fusão em que funciona de detonador uma bomba atómica) são uma confirmação bem evidente dessa antevisão de Einstein.
Mas caber-lhe-á alguma responsabilidade por uma tal utilização de energia atómica ou termonuclear? De modo nenhum! Basta mostrar que ele nenhuma tem em relação à explosão da primeira, e sempre combateu a corrida subsequente por novas e mais aperfeiçoadas armas de destruição em massa.
Não a têm também, é preciso afirmá-lo desde já, os físicos cujos nomes estão ligados para sempre e mais directamente aos maravilhosos progressos – experimentais e teóricos – já alcançados no caminho do conhecimento de estrutura dos núcleos atómicos: Becquerel e logo a seguir Pierre e Maria Curie e Rutherford – descoberta da radioactividade natural em 1896, 1898; Chadwick – descoberta do neutrão em 1932; Irene e Joliot-Curie – descoberta da radioactividade artificial em 1934; Fermi – utilização do neutrão como agente transmutante em 1943; a fissão descoberta por Hahn, Strassmann e Lise Meitner na Áustria em 1939 e que consiste na cisão do núcleo do isótopo raro urânio 235 em dois núcleos (...) com grande libertação de energia.
Do lado teórico, temos o desenvolvimento da mecânica ondulatória e da mecânica quântica, graças principalmente a L. Broglie, Bohr, Schrödinger, Heisenberg e Dirac.
Nesta lista de prémios Nobel não figura, como se vê, o nome de Einstein, apesar de esse Prémio lhe ter sido conferido, já em 1921, não pelas concepções da Relatividade mas sim pela contribuição que dera para a teoria corpuscular da luz.
Cabe-lhe, porém, a glória de ter formulado a lei que estabelece a relação directa entre matéria e energia. Foi sem dúvida o maior teórico da primeira metade do nosso século.
Por isso mesmo, com a consciência nítida do perigo que representaria para o Mundo a utilização da energia atómica para fins de destruição (o que Hitler não deixaria de fazer se o pudesse), Einstein dirigiu ao Presidente Roosevelt em 2 de Agosto de 1939 – já estávamos em guerra – este documento histórico:
«Senhor:
«Um trabalho muito recente de E. Fermi e L. Szilard, que me foi submetido sob a forma de manuscrito, leva-me a pensar que o elemento urânio pode ser transformado numa fonte de energia nova e importante, num futuro imediato. Certos aspectos da situação assim criada parecem recomendar vigilância e, se for necessário, uma acção rápida da parte da Administração. Eu creio por isso que é meu dever chamar a vossa atenção para os factos e recomendações seguintes:
«No decurso dos quatro últimos anos tornou-se muito provável, a partir dos trabalhos de Joliot em França, assim como de Fermi e Szilard na América, que possa ser possível estabelecer uma reacção nuclear em cadeia numa grande massa de urânio, a partir da qual muito importantes quantidades de energia e um grande número de elementos análogos ao rádio seriam criados. Agora parece como quase certo que isso poderia ser realizado num futuro muito próximo. Este novo fenómeno poderia conduzir também à construção de bombas e nós podemos conceber – se bem que isto seja um pouco menos certo – que bombas excessivamente poderosas dum tipo novo possam assim ser construídas.
«Uma só bomba deste tipo transportada num barco e explodindo num porto pode destruir tanto a totalidade do porto como uma parte do território circundante...
Estou informado de que a Alemanha acaba justamente de proibir a venda de urânio das minas da Checoslováquia, de que ela se apoderou. Que ela tenha empreendido uma tal acção tão prontamente pode sem dúvida ser compreendido a partir do facto de que o filho do Subsecretário do Estado alemão, von Weizsäcker, está ligado ao Instituto Kaiser Guilherme, de Berlim, onde certos trabalhos americanos sobre o urânio são actualmente reproduzidos.»
Esta atitude de Einstein está, afinal, na continuidade perfeita da luta contra a guerra que vinha sustentando desde sempre, e bem documentada em dezenas e dezenas de artigos conferências e apelos (7), realizados com mais intensidade a partir de 1920, embora não devamos esquecer que, já em Outubro de 1914, essa mesma preocupação de fraternidade humana o levou a subscrever, juntamente com Georg Nicolai e Wilhelm Foerster, um contramanifesto de resposta ao conhecido manifesto (de 93 intelectuais alemães) em apoio de Guilherme II. Foi um dos primeiros investigadores a tomar posição pública contra a utilização da bomba atómica e, perante o facto consumado, renunciou ao lugar de director do Instituto de Princeton, ficando ali apenas como simples trabalhador científico!
Mas continuou, sem desânimo nem interrupção, a sua luta apaixonada pela convivência entre os homens e a cooperação pacífica entre todos os povos do Mundo! Fez da Paz a sua bandeira! Se é certo que morreu sem ter assistido ao acto maior da Humanidade – a abdicação absoluta e definitiva do recurso à guerra que, na era atómica, a nossa era, será sempre injusta – pôde, ao menos, viver a suprema felicidade de encarar de frente a verdade da sua vida e sentir nisso uma grande alegria! E no vibrante apelo, agora tornado público por Bertrand Russell, a aposição da assinatura de Einstein, fazendo calar todas as especulações, remata admiravelmente uma vida ao serviço da Humanidade: Como é certo que, em toda a guerra futura, as armas atómicas serão empregadas... exortamos os governos do mundo a compreender e a reconhecer publicamente que não lhes será possível atingir os seus objectivos por meio de uma guerra mundial. Por isso, lhes pedimos que encontrem métodos pacíficos para regular todas as questões em litígio. Na nossa qualidade de seres humanos, nós dizemos-lhes: recordai-vos da Humanidade e esquecei o resto. Se quiserdes, a estrada para um novo paraíso ficará aberta. No caso contrário, tereis na vossa frente a ameaça da morte universal (8).
______________
(1) Título de um artigo publicado por Einstein, no jornal Science illustrated, n.º 1, Abril de 1946 (pp. 16-17).
(2) Sobre todo o problema das armas atómicas e nucleares aconselhamos o livro de Charles-Noël Martin: L’Heure H a-t-elle sonné pour le monde? Paris, 1955. Dele extraímos os dados recentes aqui utilizados.
(3) O próprio peixe e todos os objectos transportados no navio revelavam perigosa radioactividade, quando se lhes aproximava um contador Geiger. Como é sabido, estes aparelhos registam uma impulsão por cada desintegração que atravessa o detector.
Ora, alguns peixes revelavam uma radiação beta (electrões) da ordem de 10 000 impulsões por minuto (por centímetro quadrado de pele e à distância de 2 cm), quando as taxas normais não vão além de 20!
E o barco apresentava uma radiação gama (do tipo dos raios X) de 40 000 impulsões por minuto, a ponto de exigir um equipamento especial para os técnicos lá poderem entrar!
(4) É este o sentido de um artigo do escritor João Gaspar Simões: Einstein perante o Apocalipse, no Jornal de Notícias, 8 de Maio de 1955.
(5) Recordou-o a imprensa europeia, nomeadamente o jornal conservador Le Monde e precisamente por ocasião da sua morte. Consultar, por ex., Sélection Hebdomadaire, 14 a 20 de Abril de 1955.
(6) Ver a revista Habitat, n.º 20, impressionante documento dos progressos da arquitectura no Brasil. Foi-me indicada pelo meu amigo arquitecto António Lobão Vital.
(7) Consultar a sua bibliogradia em Albert Einstein, Philosopher-Scientist, Tudor Publishing Company, Nova Iorque, 1951.
(8) COMBAT – Le Journal de Paris, 11-7-1955.